Vita brevis

Este trabalho pretendeu ilustrar um excerto da novela barroca, Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, escrita em Salvador da Bahia, nos inícios do século XVIII. Conta a história da viagem de um peregrino desde a Bahia às Minas do Ouro, entretecendo ficção com tratado espiritual e conjugando a dupla dimensão da literatura barroca, ser agradável para ser útil.

Interessou-me ter em conta as reflexões barrocas sobre a efemeridade da vida e das coisas humanas e sobre a vivência e a celebração da morte. Também interessou o facto de a narrativa se apresentar como alegoria e apresentar unidades emblemáticas.

O excerto (vol. I, cap. XIX, pp. 284-285 na edição de 1939) exemplifica a angústia provocada pela metamorfose e inconstância do género humano, da vida e do mundo. A consciência da fugacidade e da fragilidade da beleza surge através da apresentação de objetos, símbolos da mutabilidade.

Isto mesmo considero hoje em ti, ó desgraçada. De que te serviu aquella bem vista formosura e portentosa belleza, quando apenas parecias um assombro de perfeições, para seres agora considerada um estrago da vida e um horror da morte?
Glorias, que hão de ser de tão pouca dura, para que é possuí-las? Felicidades tão momentaneas, para que é estimá-las? Formosura, que tão depressa se affeia, para que é idolatrá-la? Vida, que tão brevemente se acaba, porque que é prezá-la? Finalmente: para que é fazer tanto apreço e estimação de uma exhalação, que desapparece; de uma setta, que rompe o ar; de uma ave, que vôa; de um peregrino, que não tem jazigo; de uma náu, que vai navegando; de uma nuvem, que se desfaz; de uma ampolla de água, que se desmancha; de uma flor, que murcha, e de um vento, que não apparece?

Partindo do texto transcrito, estabeleceram-se nove situações correspondentes a nove fotografias. Na realização das fotografias, optou-se por um cenário mínimo e constante, com fundo negro e cadeira de estilo, com um modelo único. A redução dos elementos variáveis colocou a atenção nos detalhes alterados em cada fotografia, cada um com o seu significado. Por outro lado, corresponde aos traços da gravura impressa sobre o papel, em apenas duas cores contrastantes, branco e preto, tentando reproduzir não só o chiaroscuro da pintura barroca, mas também os contrastes da sua mundividência. A Iconologia, do italiano Caesar Ripa (edição inglesa, 1709) acabou por ser o modelo mais imediato deste conjunto de fotografias.

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