Os nós e os laços

Na vertigem de possuir o mundo (…), multiplicamos as imagens dessas coisas que nos dão apenas o fulgor de um dado instante.
Não possuímos as coisas, nem o tempo das coisas, mas apenas imagens do que é já a ruína dessas mesmas coisas.
A imagem traz em si o estigma da ruína. A ruína não é o desaparecimento das coisas. É o desaparecimento, a perda definitiva, nas próprias coisas, da sua relação com o tempo. Com o tempo histórico das coisas.

(Bernardo Pinto de Almeida, Imagem da Fotografia, 81)

Este projeto pretendeu explorar conceitos que fazem parte do meu quotidiano e da minha memória – família, afecto, corpo e tempo – fotografando uma das pessoas mais emblemáticas da minha história pessoal, utilizando o retrato e o auto-retrato.

Parti de uma relação familiar com muito significado, com a minha avó. O quarto dela foi, até muito tarde, o meu lugar de refúgio. Uma relação de afecto é também uma relação de corpo e com a minha avó sempre tive uma relação de cumplicidade, partilhando segredos, forças e fragilidades. O corpo da minha avó é a memória da minha infância, da adolescência, da minha vida adulta.

As imagens dividem-se entre a representação de gestos, de cumplicidades e afeto, de uma história conjunta. Nelas habitam duas histórias individuais, feitas também elas de liberdade e opções. De um lado a minha avó e o seu corpo de idade, sozinha na sua viuvez, mas nunca fechada na sua solidão, mulher alegre e interessada no que a rodeia; do outro lado, eu e o meu corpo, muitas vezes refém das minhas opções. Se no corpo sozinho da minha avó há ternura, que apetece abraçar, no meu parece haver algum abandono, também alguma procura. A luz que nasce daquela mão levantada é sempre o reflexo de uma alegria e de uma esperança sempre renovadas.

Por detrás de tudo isto está uma reflexão sobre o tempo, a violenta passagem do tempo, os efeitos que provoca no corpo, o envelhecimento. Quis que a captura destas fotografias se tornasse um momento único, feitas num espaço íntimo, capaz de exponenciar a cumplicidade e o afecto, a fragilidade e grandeza de um corpo mais velho.

 

A motivação vem da minha experiência pessoal. A inspiração vem da literatura e da pintura, sobretudo. Mas as influências surgiram mais diretamente quando foram abordados os temas da identidade, do retrato e do auto-retrato: Diane Arbus, John Coplans, Miyako Ishiucchi,Francesca Woodman, Sally Mann e Nan Golding, ou ainda Tatsumi Orimoto.

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