Legacy

Parte I. ARQUIVO

Parte II. RUÍNAS

Parte III. IMPÉRIO

Não fotografamos todos os espaços da mesma forma. Há espaços com os quais desenvolvemos relações de cumplicidade, que juntam memórias e expectativas. Há espaços pelos quais desenvolvemos um estranho sentido de responsabilidade. Legacy representa simultaneamente a presença de uma herança, de um património, e o respeito por um legado, quase uma missão. Representa a minha memória e minha visão do Cineteatro Império, inaugurado em 1950 em Mangualde.

Nesta linha ténue entre memória e futuro, impõe-se a relação entre ficção e documentário. Entre o que vemos e as imagens fotográficas há uma distância marcada por opções de captação e pós-produção, que comprometem a “verdade”, que rapidamente adquire estatuto de memória. É significativo que, confrontados com os meus registos fotográficos das ruínas do Cineteatro Império, alguns tenham comentado que a desolação das ruínas tinham neles um fulgor que não tinham visto… A escolha da luz, do ponto de vista, do enquadramento e da exposição, não permitem opções entre documento e ficção… são as ficções que nos permitem estruturar a nossa experiência do real e, pela imaginação, criar uma espécie de meta-realidade, para além da primeira visão, rapidamente substituída por imagens, por representações. São estas que vão constituir o nosso universo de trabalho e que vão condicionar a visão dos outros a partir dos registos fotográficos.

O jogo da ficção nesta minha representação foi ainda mais longe. O livro está dividido em três partes, sendo que o registo do espaço de ruína está omnipresente em todas as imagens; na primeira parte, o Arquivo, em que o espaço se associa à memória das personagens; na segunda parte, Ruínas, com fotografias do espaço; na terceira parte, Império, em que no espaço degradado se inventa uma memória futura. Contudo, na primeira e na terceira partes, o retrato possibilita uma leitura acrescida, seja pela memória associada às personagens retratadas, seja pela expectativa de um futuro próximo das personagens.

Fotografar um edifício em ruínas implica não só ver, mas estar lá. A demora e o silêncio permitem um exercício de maior subjectividade, uma reflexão sobre fotografia como memento mori, tendo em conta a sua relação com o tempo passado e a sua condição referencial. Não só a a fotografia estabelece uma relação temporal com o tempo que foi, como, neste caso, a impressão do tempo era visível na ruína do edifício. A impressão de “passado” nas fotografias antigas, pertencentes a arquivos privados, tornou-se ainda mais pungente, contrapondo uma idade de ouro à decomposição do edifício. O estigma da ruína transformado na própria ruína.

Na nossa experiência visual encontramos identificações distintas que responderam a algumas perplexidades: por um lado Duarte Belo e a sua experiência com a Biblioteca Nacional, por outro lado a vertente pictórica, o retrato e a construção de narrativas com Gregory Crewdson, Jeff Wall, Eugene Richards, Richard Tuschman, por exemplo. E como ignorar o impacto da pintura de Edward Hopper e Jack Vettriano?

A realização do projecto correspondeu à manifestação de uma memória individual, mas também de uma intensa memória colectiva de que restam, para além do edifício degradado, testemunhos vivos e um arquivo considerável. A ruína não apagou a memória do Império, nem do tempo nem das pessoas. A recuperação do edifício representa a consciência de que uma cidade precisa da sua memória e da sua identidade. A imagem fotográfica faz parte dessa história, faz parte dessa consciência, fará parte do seu futuro.

Porto, maio de 2016

Sara Augusto

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