A ordem das coisas. Serralves.

Aprendi nos sonhos a coroar de imagens as frontes do quotidiano, a dizer o comum com estranheza, o simples com derivação, a dourar, com um sol de artifício, os recantos e os móveis mortos e a dar música, como para me embalar, quando as escrevo, às frases fluidas da minha fixação.

Livro do Desassossego, fragmento 173.

Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Livro do Desassossego, fragmento 94.

 

Este trabalho, realizado nos jardins de Serralves, resultou de um exercício que implicou dois movimentos: : por um lado, estaria, como está regularmente no meu acto fotográfico, a convocação de pessoas, de memórias e afectos; por outro lado estaria a minha relação com o espaço de Serralves e com espaços e tempos anteriores. O ponto de partida tinha a ver com a memória de jardins em diversas alturas da minha vida, na companhia da família e dos amigos. A essa memória associei outra, a de tomar chá como acto de encontro, de disponibilidade para estar, conversar e usufruir de um tempo comum, recriando um hábito do meu quotidiano. Estas memórias, que pareciam fazer sentido, juntaram-se afortunadamente nos jardins de Serralves: como tomar chá em Serralves com a minha avó, com as minhas irmãs, com as amigas de sempre, sendo que teria de lidar com a sua ausência?

O exercício fotográfico realizou-se em diferentes etapas e implicou abordagens diferentes de acordo com a reflexão sobre o trabalho já feito e a percepção da sua insuficiência, ou não correspondência; o tempo passado a fotografar e o consequente envolvimento com o espaço, criando novas perspectivas; as leituras teóricas e a visualização de fotografias. Este conjunto de aspectos alterou a linha orientadora inicial do trabalho, passando de um distanciamento próprio da fotografia de produto, para uma proximidade cada vez mais procurada e resolvida, ampliando assim o trabalho de uma única linha condutora para um conjunto de aproximações ou “fragmentos”.

A multiplicidade de leituras que as fotografias escolhidas apresentam, entre o movimento e a quietude, entre a ausência e a presença, entre o normal e o insólito, não é mais do que a afirmação de uma “demanda”, mas também de um certo espírito “lúdico”, muito característico da experimentação e do comprazimento genuíno com o que se está a fotografar. Mas, no fim de tudo, as coisas que representamos tendem para uma ordem, sobretudo as que brotam da imaginação. Essas, mais do que todas, procuram uma leitura que as valide, mesmo que seja a surpresa. A escolha do título, A ordem das coisas, mais do que uma interpretação das fotografias, ou de mim própria, tem a ver com a interpretação de um movimento mais geral. Seja qual for o percurso que eu faça dentro deste conjunto de fotografias, ou dentro de cada uma das fotografias, as coisas tendem para a ordem, mesmo que essa ordem seja a “desordem” do fragmento.

 

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