A minha rua

Para a Avó Lulu. Para os meninos: André, Anita, Jaime, Júlia, Artur, Joana, Nicole, Miriam, Ivo e Constança. Para o Gato.

Se esta rua fosse minha eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar.  Nessa rua tem um bosque que se chama solidão; dentro dele mora um anjo que roubou meu coração. Se eu roubei teu coração, tu roubaste o meu também; Se eu roubei teu coração, foi só porque te quero bem.

(Cantiga de roda popular brasileira)

 

A casa em que moro era dos meus avós. Pintaram a casa de cor-de-rosa e é assim que me lembro dela: um casarão enorme, com um pátio cimentado onde caí e parti um dente, lojas escuras e húmidas, muitas janelas pequeninas. Vivi ali cinco anos da minha infância.
A minha vida deu voltas. Agora a casa dos meus avós é a minha casa. A rua é pequena, a mais pequena da aldeia. Não chegará a cem metros. Começa com as escadinhas, rentes à minha casa e depois encurva e acaba. Escadinhas do Duque…
Vive pouca gente na minha rua. Na verdade, vivia só eu e o Gato. Hoje sou só eu. Seria aparentemente uma rua sem histórias para contar. Mas não é assim… na verdade, quase toda a gente da aldeia passa pela rua todos os dias, várias vezes, a várias horas. Tinha intenção de registar essa passagem na “minha rua”.

Quem passa na rua, na sua individualidade e na interação comigo e com a minha casa, com o meu quintal, com as laranjeiras e as roseiras plantadas há dezenas de anos, não só transporta a memória mas também constrói novas memórias. No labirinto que constitui a memória humana, dispersa e caótica, a fotografia pode ser um método de tentativa de arrumação tão válido como a escrita literária.

Numa aldeia cada vez mais desabitada foi uma boa surpresa perceber que a minha rua, onde só eu vivo, tem gatos e crianças que a fazem sua. Suponho que há cinquenta ou cem anos também fosse assim. Os antigos risos e gritos de alegria reencontram nestes sorrisos dos meus sobrinhos e dos outros meninos da aldeia a mesma vida que transborda das pedras húmidas das escadinhas e da rua estreita e sombria.

As fotografias estão acompanhadas de textos: nove excertos de um suposto diário da minha avó para as nove fotografias. Foi um exercício de grande emoção imaginar o pensamento da minha avó durante os dois meses que antecederam a sua ida para Angola.

 

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